Atitudes nem sempre lembradas

A história, ah! a história. Ela registra fatos e feitos de grandes personagens. Faz, nesse aspecto, justiça. Mas não cuida de registrar, no mais das vezes, sequer o nome de personagens menores, ainda que tenham realizado algo meritório.

“Jaime Scott era bem garotinho e queria muito participar da apresentação de uma peça teatral em sua escola. Inscreveu-se e colocou nisso o seu coração. Sua mãe preocupou-se diante da possibilidade de Jaime não ser escolhido e sentir-se frustrado. Ocorreu, então, a distribuição dos vários papéis, das várias partes ou atos em que a peça se desenrolaria. E o menino não foi escolhido para nenhuma delas. Mas sua professora, com muita sabedoria lhe disse: Jaime você foi escolhido para aplaudir, ou seja, faria parte do auditório e deveria bater palmas em aplauso à peça[1]”.

Quando sua mãe foi buscá-lo ele veio ao seu encontro sorrindo, esbanjando alegria e satisfação – “Adivinha, mamãe, eu fui escolhido para bater palmas”.

A par da sabedoria da professora destaca-se a humildade de Jaime Scott.

Eis uma bela lição. Sabedoria de um lado e humildade de outro. Dois ingredientes que marcam sempre as pessoas de sucesso.

Na Bíblia Sagrada encontram-se registros de pessoas que praticaram atos nobres, mas que delas pouco se falou e se fala. No livro de Êxodo está registrado o ato de duas parteiras: Sifrá e Puá (Ex. 1:15-22) que, tementes a Deus, não cumpriram a ordem criminosa de Faraó e deixaram sobreviver muitos meninos nascidos das mulheres hebréias, entre eles Moisés, o homem que sob as potentes mãos de Deus foi o grande libertador do povo de Israel da escravidão no Egito.

Apesar de notável o feito de Sifrá (cujo nome significa “resplendor”) e de Puá (que significa “esplêndido”) nada mais sobre elas se falou. Ficaram em completo anonimato, pelo menos na memória humana.

Outra personagem que realizou feito considerável não tem seu nome registrado, mas sobre a sua atitude sempre se fala nos púlpitos pelo menos.

Ela era uma cativa de guerra e criança. Sucinta referência sobre ela está no segundo livro dos Reis, capítulo 5 e verso 2-3[2]. Seu gesto foi muito nobre, tanto mais se se considerar a sua condição. O anotador do texto na Bíblia de Estudo Plenitude (Larry D. Powers) pontuou que “essa jovem provê aqui uma comovente imagem da importância de se vencer o medo das pessoas e levar outros ao Senhor”. Ele refere que a menina cativa foi ousada, considerando-se a sua condição de cativa de guerra e serviçal e, ainda, em terra estranha para ela.

Belíssima lição sem dúvida.

Considere agora uma outra situação igualmente importante. Paulo, o Apóstolo, escapou de morte certa em uma emboscada porque Deus, que vê e ouve todas as coisas, fez com que um rapaz desconhecido e por isso mesmo sem relevância, ouvisse a trama macabra que estava sendo urdida por mais de quarenta judeus, os quais mancomunados, fizeram um voto de que não comeriam e nem beberiam enquanto não matassem a Paulo (At. 23:12-35).

Aquele moço era filho da irmã de Paulo. Providencialmente Deus fez com que ele estivesse próximo, quando os conspiradores falaram com os principais sacerdotes e anciãos para que dirigissem ao tribuno pedindo que no dia seguinte pela manhã, trouxessem a Paulo, que se encontrava preso, para ouví-lo e, antes que ele chegasse, o atacariam e matariam.

Entra, então em cena, o até então obscuro sobrinho do grande Apóstolo que, imediatamente “conseguiu” entrar na fortaleza, avistar-se com seu tio e colocá-lo ciente da cilada que lhe estavam preparando. Levado por um centurião ao tribuno o jovem deu-lhe conhecimento da terrível trama, o que tendo o tribuno ouvido mandou ao rapaz que a ninguém falasse sobre aquele fato.

Incrível mas o tribuno agiu corretamente e naquela mesma noite providenciou a transferência de Paulo, sob forte esquema de segurança para Cesaréia, de sorte que o diabólico plano engendrado pelos mais de quarenta judeus não se concretizou.

Deus tem seus métodos sempre corretos, sempre oportunos, mesmo quando deles nada se entenda nem se os compreenda.

Qualquer um dirá, como se faz costumeiramente, que o moço estava no lugar certo  na hora certa, o que aliás não deixa de ser verdade. Mas não se tem dúvida de que foi Deus que fez com que ele estivesse ali, naquele lugar e naquela hora e, não sendo levado a sério por ser ainda bem jovem, os conspiradores não tiveram a precaução necessária e ele ouviu tudo o que estavam planejado. Também parece fora de qualquer dúvida razoável que foi Deus quem permitiu que ele entrasse na fortaleza e se avistasse com seu tio preso. Vou além: foi Deus quem permitiu ao tribuno “dar ouvidos” a um rapaz desconhecido e foi ainda a providência de Deus quem “tocou” no coração do tribuno para tomar as medidas que culminaram na frustração do plano maquiavelicamente engendrado pelos judeus.

Esse mesmo Apóstolo tem uma palavra que se faz oportuno recordar e que diz: “..Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as coisas desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são” (1 Co. 1:27-28).

Nos exemplos mencionados se vê que pessoas sem importância aos olhos humanos, são usadas por Deus para concretizar seus planos, da maneira que Ele os quer concretizados. É bom que se tenha presente que muitos outros exemplos do cotidiano poderiam ser trazidos à colação.

O gesto, as atitudes dessas pessoas, conquanto não registrados pela História, são como a elegante e bela atitude da pecadora que ungiu os pés de Jesus: serão lembradas em todo o mundo, e ensinam que, na jornada da vida cristã, situações tantas darão ensejo a que sejam praticadas ações que, mesmo não constando dos anais da História, poderão contribuir de maneira eficaz para o avanço do reino de Deus e para a salvação de almas.

 

S. LINO Simão

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¹ Rubens Scheffel. Meditações Matinais: Até que Ele volte. Casa Publicadora Brasileira. Tatuí/SP, 2021, p. 27.

² “Tropas saíram da Síria, e da terra de Israel e levaram cativa uma menina, que ficou ao serviço da mulher de Naamã. Um dia a menina disse à sua senhora: – Quem dera o meu senhor estivesse na presença do profeta que está em Samaria; ele o curaria da sua lepra” (Nova Almeida Atualizada).