Quando o Aautismo encontra o amor de Deus, a graça se sobrepõe a toda limitação
O título “bAutismo” nasceu de uma sugestão carinhosa e bem-humorada do meu amigo e irmão de caminhada Andrei Sampaio. Ele une duas palavras que, à primeira vista, parecem distantes (batismo e autismo), mas que na prática revelam algo extraordinário e disruptivo: a graça de Deus alcança todas as pessoas, sem exceções, inclusive pessoas com autismo.
Ao longo da minha jornada, tenho visto o Senhor agir poderosamente na vida de crianças e jovens autistas, conduzindo-os à fé, à comunhão com a igreja e à decisão pública por Jesus Cristo. E isso traz a tona uma verdade que precisamos nos lembrar, sem nunca esquecer:
Dentre todas as necessidades que o autismo pode apresentar, existe uma que é a mais fundamental de todas — pessoas autistas precisam de Jesus (Jo 3:16). Talvez essa afirmação cause estranhamento. Eu entendo.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve inúmeras demandas: dificuldades de comunicação, desafios sensoriais, comorbidades como deficiência intelectual, epilepsia, apraxia de fala, transtornos de ansiedade, seletividade alimentar, TDAH, entre outras. Muitas pessoas passam a vida tentando responder a essas necessidades, o que de fato é importante.
Mas em meio a tantas ocupações legítimas por sinal, a verdade da cruz jamais deve ser suprimida, pois dentre todas as necessidades humanas ela deve ocupar a primazia, em primeiro lugar devemos atender a essa necessidade essencial: estar no reino, estar à sombra da cruz.
É em Cristo que pessoas autistas e suas famílias encontram força, propósito e esperança. É apenas em Jesus que elas encontrarão sentido, segurança e paz para enfrentarem os tantos desafios da vida. É n’Ele que descobrimos que somos mais que vencedores, não por nossas capacidades, mas por causa d’Aquele que nos amou e nós capacita em cada acordar.
O mesmo Jesus que entregou Sua vida na cruz por amor a você, também ama profundamente cada pessoa autista. Ele toca esses corações de maneira singular. Ele transforma suas histórias, sem nenhuma restrição. Ele concede vida eterna, sem fazer acepção. Eu sei que o autismo traz desafios reais. Mas também sei que NADA pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8:35).
Por mais intenso que seja o comprometimento, por mais profundo que seja o grau do autismo, mais profundo ainda é o amor de Deus. Maior é seu poder de alcançar e transformar. Mais extrema é a graça d’Aquele que Se entregou por amor.
A missão da Igreja não é medir níveis de compreensão, calcular capacidades cognitivas ou avaliar limitações humanas. Nossa missão é pregar o Evangelho e confiar na Palavra que alcança o coração pela ação sobrenatural do Espírito Santo — o mesmo Espírito que convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8).
Uma história de “bAutismo”
Essa verdade se tornou viva na minha própria história familiar por meio do Samuel, meu filho autista. Ele mal falava até os quatro anos de idade. Quando tinha apenas dois anos, ouvimos um prognóstico duro: “Ele nunca vai aprender.”
Para nós, como pais, ouvir isso foi devastador. Muitas preocupações surgiram. Mas a primeira que tomou meu coração foi: “Como vou ensinar Jesus para ele?” E a resposta foi simples: ensinando! (Dt 6:7) Falando, lendo, cantando, vivendo o Evangelho no dia a dia.
Aos cinco anos, ainda com poucas palavras, ensinei a ele e ao irmão, Pedro, a história da Páscoa. Como Samuel não conseguia explicar com palavras, pedi que desenhasse o significado. Ele desenhou Jesus na cruz. Ali eu entendi: o coração dele já havia sido alcançado. Aos nove anos, Samuel pediu para ser batizado. Achamos cedo e pedimos que esperasse.

Em cada apelo de batismo feito por seu pai, pastor da igreja, ele assentia, desejando ser candidato. E nós dizíamos: “Ainda não.” Mas ele sempre respondia: “Eu quero ser amigo de Jesus para sempre.” Quando o irmão mais velho se batizou, Samuel ficou triste por ainda não ter sido autorizado. Até que, aos onze anos, ele adoeceu com dengue. Foram dias difíceis. Ele perdeu quatro quilos em três dias e mal conseguia abrir os olhos. Tememos o pior. Oramos.
Em um momento de extrema fragilidade, ele me perguntou:
— “Mamãe, se eu morrer, eu vou para a eternidade com Jesus, como o tio Flávio?”
— “Vai, filho.”
— “Mas eu não batizei…”
Naquele instante, eu entendi que o desejo dele por Jesus precisava ser respeitado. Então meu marido e eu decidimos diante do Senhor que quando Samuel estivesse plenamente restabelecido, ele seria batizado no próximo culto de batismo da igreja. Três meses depois, no dia 5 de outubro de 2024, Samuel declarou publicamente sua fé nas águas batismais.
Foi um momento precioso. Um marco para ele, para nossa família, amigos de jornada cristãos ou não, e um testemunho extraordinário do poder e amor de Jesus! (E havia ainda um detalhe tocante: aquela data seria o aniversário do tio Flávio, meu irmão, que já dorme no Senhor. Para mim, foi um sinal da fidelidade e do cuidado de Deus.)
Não existe laudo, sentença ou prognóstico capaz de limitar o poder de Deus na vida daqueles que creem. Por isso, podemos afirmar com convicção, parafraseando Paulo: “Nem a morte, nem a vida, nem o autismo, nem qualquer outra condição… nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Que o bAutismo continue sendo um testemunho vivo de que o Evangelho é para todos. A Ele seja toda a glória!
Texto: Diaconisa Juliana Duque | líder da Secretaria de Inclusão da Convenção Geral








