O Pedido

“Me dá buleia!!
Dois meninos e uma menina pedindo carona.
Os três comigo no banco de trás.
Eles sussurram
em macua.
“Me dá um sapato!”
O pedido foi feito nos meus ouvidos.
Nem ele acredita que foi capaz de tamanha ousadia.
Medi o pé do Arlindo com uma tala.

Sei que calçar o Arlindo é privilégio que Deus dá a poucos.
“Aquele que faz aos pequeninos, a Mim o faz”.

 
 
 
Um Gesto Simples

Crianças brincando.
Sentadas no chão e em círculo.
Ossos, pedras e pauzinhos a entretê-las.
Haverá algo a acrescentar-lhes mais alegria?
Uma bola de futebol cai do céu no meio deles.
Ufos de alegria.
Chutes, gargalhadas, poeira, quedas…
Adultos não resistem e vem pra roda de bola.
Um gesto simples a contagiar uma tribo.

 
 
Biscoitos no Ar

Sol ardente, às duas da tarde na África.
Centenas de crianças esperando.
Fazem cadastro para estudar.
Almoço cozinhando nas panelas de chão.
Dois pacotes de biscoitos e um de chupa chupa nas mãos.
Em segundos, fui colocado na roda.
Mãozinhas estendidas da cor de terra.
Impossível organizar.
Só há uma saída: biscoitos ao ar.
Poucos caíram no chão.

 
 
Apenas um Caderno
Nos arredores de Malema não há sonho de consumo.
São inábeis com dinheiro.
Quase nunca falam dele.
O danado não faz parte de suas vidas.
– Oi Domingas, como foi seu dia?
– Bem. Me traz um caderno!
A menina de treze anos anda uma hora e meia de bicicleta para a escola.
Quer apenas um caderno.
 
 
Pão, e do Bom
Em Moçambique quase só se come chima.
O amido de milho branco é como arroz para brasileiro.
Poucas mudanças no paladar
De repente, um forno de tijolos.
Um paranaense amassa o trigo.
Pão, do bom.
Moçambicanos experimentando novos sabores.
– Obrigado pastor Gelson!

 
 
 
Com a Vó

Ela tem estatura baixa.
Se esforça para entender meu português.
– Quem são seus pais?
Silêncio, pausa, lábios cerrados.

Morreram!
Com quem você vive?
– Com a Vó.
Ginoca é uma entre milhares de crianças órfãs.
Em Moçambique a média de vida não chega a 50 anos. 

Pr. José Lima

Deus não precisa provar sua existência

“E se você fosse conhecer seu criador ou Deus e ele fosse uma decepção total?” [1] disse a atriz Charlize Theron, em uma entrevista acerca do seu novo filme “Prometheus”. No filme, Theron encarna como personagem uma mulher ambiciosa que lidera uma expedição espacial em busca de vestígios da origem da humanidade. O filme é uma ficção científica, que trata das questões que mais intrigaram os pensadores de todas as épocas e lugares: de onde viemos?  Quem nos fez? Qual o sentido nisso tudo? Ao contrário do que creem os cristãos, o longa-metragem traz a ideia de que nossa origem não é divina, mas alienígena. Theron, que afirmou crer na existência de forças extraterrestres comentou: “É muito ingênuo ou narcisístico pensar que somos as únicas coisas vivas no universo”[2]. De fato, esse pensamento parece ter lógica. O universo, tão grandioso, nos lança para o mistério: existe alguém além deste planeta azul? E Deus, existe ou não?
Bem, não é de hoje que essa pergunta incomoda alguns. Por vezes me pego pensando como seria mais fácil se Deus provasse a todos a sua existência. Alienígenas, teorias como Big Beng e a evolução das espécies seriam reduzidas a meras idiotices infantis. Os céticos rangeriam os dentes de ódio e os ateus se renderiam penitentes. Nietzsche se veria obrigado a admitir: “Deus não morreu”. Ah, seria tão mais fácil. Nem precisaríamos mais testemunhar sobre a existência de Deus. Contar algo que alguém já sabe não tem graça. Mas curiosamente, Deus não faz isso. Ele permite que os ateus não creiam nele. Que os céticos O zombem e que as teorias de nossa existência se multipliquem. Ele parece respeitar inviolavelmente nossa liberdade.
Ele não faz questão de dar provas cabais de sua existência. Ele não se submete ao escrutínio humano. Talvez haja uma razão plausível para isso. Se existisse provas cabais da existência de Deus a fé não seria necessária. Você não precisa ter fé na existência do ar– ele simplesmente existe, acreditando-se nisso ou não. Você não precisa acreditar que os pássaros são reais – os pássaros simplesmente são reais, e você pode comprovar isso de diversas maneiras; todo mundo sabe. O mesmo não se pode dizer com relação a Deus. Tudo o que se pode provar não se exige fé.
Fé é confiança. Para que a fé exista é preciso que exista também dúvidas, ambiguidades e incertezas. A fé é uma semente que floresce apenas no solo das angustiosas dúvidas e questionamentos humanos. É um lançar-se num abismo escuro crendo que haverá Alguém lá embaixo para lhe segurar. “Se eu não vir o sinal dos pregos nas mãos e não puser o meu dedo no seu lado, de maneira nenhuma crerei”, exclamou Tomé antes que, profundamente convicto, dissesse ao Cristo ressuscitado: “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20.25, 28). Vejam: a dúvida antecede a fé.
O mundo é, de fato, um grande ponto de interrogação e para aqueles que têm corajem o bastante para se questionar Deus se faz um pouquinho mais próximo. É preciso de mais corajem para crer do que para duvidar. Deus permite as dúvidas para que haja espaço para a fé. Afinal de contas, “a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova daquilo que não se vê” (Hb 11.1). Para estes, que tem fé mesmo em meio as dúvidas, Deus não é uma decepção, mas uma realidade inegável e tangível. Para estes, as dúvidas não os distanciam de Deus, mas paradoxalmente os aproximam. Deveras, a fé em um Deus amoroso não nos responde todos os grandes enigmas do universo ou os inúmeras questões insolúveis acerca da vida, mas pelo menos tranquilizam e nos pacificam.
“As mais difíceis indagações da vida nunca são “removi­das” (nunca ficamos sabendo por que Deus faz isto ou aquilo, por que um avião cai ou acontece um desastre nu­ma mina). Mas somos “redimidos” do poder destrutivo dessas perguntas. O pânico não mais pode nos surpreen­der quando não entendemos o sentido daquilo que Deus permite que nos aconteça. O seu amor não mais nos con­fundirá; aprenderemos a crer naquele amor mesmo quan­do não compreendemos os meios que aquele amor escolhe para se expressar.”
— Helmut Thielicke, How to Believe Again (“Como Crer de Novo”)

 
Kassio F. P. Lopes é missionário em Corumbá (MS).


[2] Idem.

A Corrida do Horror


Pode-se dizer que todo o território de Moçambique é habitado.
A estrada é uma extensão da casa.
Povo andarilho.
Uma cena comum intriga o viajante branco.
Ao avistarem o carro e a cor diferente, somem mato a dentro.
Velozes a fugir.
“Traficantes brancos raptam as meninas e as levam para países ricos”.
Seus pais as orientam a fugir como flechas.
Corrida horrenda.
Na Nova Terra, o pecado e o mal já não mais existirão.

De Joelhos

O pastor brasileiro estava a se aprontar para o almoço.
Debaixo de uma árvore, em Mutai, volta-se para a direita.
Logo o vejo de joelhos, prostrado em lágrimas.
A sua frente estava Fazbem, com trapos no corpo.
Osmar Pedro o abraçou ainda ajoelhado.
Fazbem vestiu novas roupas.
Um ano e meio depois estão frente a frente.
O pastor brasileiro voltou a chorar.
A África tem esse poder.

Vontades

A África me enche de vontades.
Queria ter uma fábrica de roupas.
Queria que o dono das havaianas viesse aqui.
Queria ter mais braços.
Queria me transformar em milhares de colchões macios.
Queria ser um pediatra.
Queria levar cinco crianças comigo.

Cultura e Dignidade

Mitilili fica no pé da grande montanha da Zanbésia.
Sentados, estamos à sombra da gigante de pedra.
Esperamos alguns promessistas descerem de lá.
Surpreendentemente, uma irmã se prostra ajoelhada ante nossa face.
Com a mão estendida expressa o seu respeito em dialeto macua.
Nao pode haver expressão mais cervil.
Sua humildade comove e nos indigna.
Seu gesto é seguido por mais três mulheres.
Se elas saudam os homens em pé, são mal educadas.
Quando a cultura solapa a dignidade, o Evangelho é contracultura.

O Rio e o Poço

Tomar água, tomar banho, fazer comida.
Baldes de plásticos na cabeça rumo ao rio Nataleia.
Mãos, pés, corpo suado.
Mulheres a descer e subir ladeiras num vai-e-vem sem fim.
Subitamente, máquinas chinesas interrompem a rotina do rio.
Em horas, água limpa irrompe das profundezas da terra.
Mãos, pés e corpo em dança.
O poço agora é o rio.
Deus socorreu o seu povo.
Pr. José Lima

Histórias que cortam a alma

Quem são nossos irmãos moçambicanos, vivendo numa realidade tão difícil?

 
 
O Menino e o Caderno
 
Ele caminha na estrada empoeirada rumo à Vila de Malema
Passos lentos mas certeiros
Lhe daria uns sete anos
Sua roupa…
Está a apertar um caderno no peito
As bordas se soltam de tão velho
Parece saber estar ali sua maior esperança
Nosso carro está a passar
Ele olha para mim pelo canto do olho
Graça que não mereço
A poeira o escondeu de meus olhos
Nem seu nome eu sei dizer

 
 
O Visionário
Dizem que a flor do campo se destaca
Das casas de barro e palha a do Feliano se destaca
Rebocada e forrada com jornais e a revista da IAP
Tem cama e mosquiteiro
Um luxo
Em redor da casa uma humilde fábrica de tijolos
“É para vender, para fazer uma casa nova e casar-me”
Nem namorada ainda tem
Prepara-se para o amanhã
Visionário
Obra do Espírito Santo
 
 
Cena Cortante
Há um ano e meio o conhecemos
Quando encostávamos o carro, o Osmar logo vinha
Tinha quatro anos
A mesma camisa e calção azul
Cruzava os braços na barriga e ficava a nos ver
Agora está com um braço e uma perna paralisados
Olha para nós e estende o braço bom
Corta o nosso coração
Recebeu carinho, biscoito e doce
Foi ungido com óleo
“Ó Deus, tem misericórdia do Osmar!”
 
O Povo da Montanha
Ela é imensa, grandiosa, magnífica.
Deus a fez exuberante e bela.
Do seu cume e das partes mais altas jorra água
cristalina.
É a montanha de Mitilile em Zambésia.
No pé dela está uma IAP com 53 pessoas.
Muitos deles trabalham e moram lá em cima.
Povo da montanha.
Povo de Deus.
Vivem bem mais “perto” dele.

 
Pr. José Lima

Água potável pela primeira vez

Poço em Nataleia jorra água e irmãos celebram, num verdadeiro culto

 
 
Eu e Pr. Osmar fomos pela manhã a Mutai, uma das comunidades centrais da região de Malema. Pela graça de Deus, foram cadastradas 104 crianças para educação, num esforço duro, sobretudo do pastor Osmar. Deus ainda nos deu a graça de batizarmos nas águas seis pessoas; realizamos, também, a Ceia do Senhor para os batizandos e para os que se batizaram há algumas semanas antes de chegarmos. 
 
O Pr. Gelson ficou em Nataleia, pois a empresa dos chineses furou o poço pela manhã. Jorrou água potável pela primeira vez para nossos irmãos nataleenses. Deus lembrou-se do seu povo! Foi emocionante ver o júbilo deles. Em festa, usavam o corpo, a música, a voz linda para exaltar o Senhor da água.
Agora falta a parte superficial do poço, acabamento do piso e fixação da bomba manual, pois não há energia em Nataleia. Estamos fazendo todo esforço para deixarmos tudo pronto ate a próxima terça feira.
O forno que o pastor Gelson idealizou já está pronto. Pode parecer coisa simples, mas por aqui pode ser algo com potencial de alterar os sabores e o hábito alimentar para melhor. Na próxima segunda, o pastor Gelson assará algumas especiarias dele para mostrar às irmãs. Até terça feira, ainda sobre o comando do pastor Gelson, banheiros e chuveiro masculino e feminino estarão prontos, se Deus quiser. A forma como esta sendo feito, muito contribuirá para melhorar a higiene e saúde da comunidade A horta também devera ser concluída ate terça feira. Tudo isso sao embriões de mudanças substanciais, pois temos muito respeito pela cultura ou forma como eles entendem a vida e sua realidade.
Os pastores Gilberto e José Carlos nos informaram que 70% da construção de Anchilo já esta pronta. Será uma construção de 6 por 10 metros, um bom prédio. Um grande trabalho desses homens de Deus.
 
Amanhã, eu e Pr. Osmar vamos a duas comunidades distantes fazer trabalho pastoral, incluindo a inauguração de uma igreja, na Zanbezia. O Pr. Gelson fica em Nataleia, para cuidar das obras do poço, da horta e dos banheiros.
 
Terça pela manhã deveremos oferecer as instruções sobre higiene e saúde. Foi iniciado o curso básico de teologia na sexta feira, com toda a liderança. O mesmo será concluído na segunda feira, pela manhã.
 
Eu não tenho dúvidas de que foi a oração da igreja brasileira que nos ajudou a superar terríveis obstáculos. Como é difícil fazer as coisas por aqui! Hoje, por exemplo, estamos exaustos, e temos que levantar às cinco da manhã para um dia muito difícil e desafiador, numa região onde o foco de malária é muitíssimo grande. Mas Deus está conosco, e disso eu jamais duvido.
 
Pr. José Lima

Quinto dia de obras em Anchilo

18 irmãos trabalham  arduamente na construção

 



 
 
 
“Ontem, sexta-feira, foi o quinto dia de trabalho na construção da IAP em Anchilo (Moçambique). Contamos com 18 trabalhadores, entre pedreiros e ajudantes, sem falar nas quatro irmãs, que estão cozinhando todos os dias. Nossa previsão é acabar até a próxima quarta-feira, pois será o ultimo dia de nossa permanência aqui.”
 
Pr. Gilberto Coelho e Pr. José Carlos.
 
Hoje os pastores cultuaram a Deus em Nampula, pela manhã, e à tarde, vão cultuar com os irmãos em Anchilo.

Nota de falecimento

Irmã Sandra Sacomani, da IAP de Amparo (SP), dormiu no Senhor

 Dormiu no Senhor hoje a irmã Sandra Sacomani, da IAP de Amparo (SP), aos 44 anos. Ela era irmã do pr. Paulo Sacomani e Dsa Silvia Sacomani, ambos da Convenção Regional Paulistana. Há quatro meses vinha lutando contra um câncer. Era viúva há pouco mais de três anos. Deixa o filho Felipe, de 17 anos. Oremos intensamente por ele.
O velório será no Cemitério Municipal de Amparo e o sepultamento, às 16h30 de hoje.

Nota de falecimento

Pb. Djalma Santos, da IAP em Cidade Tiradentes (São Paulo), dormiu no Senhor

 Com pesar, a diretoria da Convenção Paulistana Leste informa que dormiu no Senhor o PB. Djalma Silva Santos. Ele era membro da IAP em Cidade Tiradentes, nascido em 02/05/1927, na cidade de Salvador (BA) e  consagrado ao presbiterato em 24/01/1988. Ele faleceu nesta quarta, às 6h30.
O corpo está sendo velado na IAP de Cidade Tiradentes (Rua Eduardo Vassimon, 101),  de onde sairá amanhã (14/06/2012), às 8 horas para o Cemitério da Vila Carmosina – Itaquera (R. Serra de São Domingos, 1597).
A dor profunda que a família, os irmãos e amigos estão sentindo neste momento só pode ser amenizada pelo Deus criador. Oremos por eles.

Conexão Radical

Rumap Paulistana Leste realiza evento em dois locais. Para jovem nenhum ficar de fora!

IAP em Anchilo (Moçambique)

Preparativos para a construção da igreja

 



Neste domingo, chegamos em Anchilo. Visitamos o terreno e fizemos reunião com os irmãos apresentando o Projeto Plantando Esperança.
Ficaram muitos felizes por receberem a confirmação de que a construção já se inicia nesta segunda (11) pelos pastores José Carlos e Gilberto Coelho.
Eu, Pr. José Lima e Pr. Gelson partimos agora para Malema, onde os irmãos já estão ansiosos nos esperando.

 
Abraços
Pr. Osmar Pedro