Não se trata de um movimento estático, escrito nos livros empoeirados da história
“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16.18)
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” (2 Tm 3.16-17)
Estava certa vez numa rua famosa de São Paulo, a Conde de Sarzedas (conhecida como rua dos evangélicos). Lá conheci um irmão presbiteriano, que me disse em determinado momento de nossa conversa: “não há nada mais para se pensar depois da Reforma”.
Fiquei abismado. Tempos depois, li que um dos pilares do movimento diz em latim: “Eclesia reformata et semperreformanda secundum verbum Dei” (Igreja reformada e sempre se reformando de acordo com a Palavra de Deus) . Vamos meditar como este slogan (frase sintetizadora) da Reforma, cujo personagem principal foi Lutero, nos incentiva a sempre Reformar!
1. Não existe nenhuma Reforma a ser feita, se não levar em conta a igreja. (Mt 16.18)
Não há pensamento mais revolucionário que a igreja, pois, seu conceito tirado do grego “eklesia“, conceito político e secular, que eram grupos para debater as demandas da cidade, na aplicação do Cristo, ganha novo significado, como diz “O Doutrinal”: é uma comunidade que existe em torno de Jesus, retirada do pecado pela graça dele, quando as pessoas colocam sua fé em Cristo, o recebendo a ordem de serem seus seguidores (discípulos) e seus missionários no mundo, seja na sua rua ou nas nações.
Uma reforma evangélica passa pela mentalidade equivocada de uma geração que pensa que o congregar foi dispensado da experiência cristã. Lembremos do mandamento primitivo de não deixarmos de congregar (Hb 10.25). Nas palavras do papa Bento XVI: “[É mentiroso] (…) o slogan que esteve em evidência há alguns anos: ‘Jesus, sim, Igreja, não’. Este Jesus individualista é um Jesus de mentira. Não podemos entender Jesus sem a realidade que Ele criou e através do qual se comunica [a Igreja]”.
A ideia de cristãos sem igreja é uma falácia e contradição, pois no Novo Testamento, não há cristão sem congregar. Não há possibilidade de amar a Cristo e não amar seu Corpo. Ou seja, de nada adianta o espírito revolucionário, os acalorados debates virtuais, a mais verdadeira crítica, se aquele que a faz não leva em conta a vivência da igreja.
Lutero não foi um crítico sem congregar, mas suas críticas ao catolicismo foram levantadas por aquilo que ofendia a Deus e as Escrituras, e que deixavam a igreja longe do propósito original, conforme Mateus 16.16-18.
Por outro lado, a igreja como instituição tem recebido algumas críticas. E até algumas coisas ditas pelos “desigrejados” (como calúnias, traições e outros escândalos como justificativa do afastamento), podem, em parte, ser tratadas não apenas como problema de gente revoltada, mas, como diria o teólogo Walter McAlistar, “sintomas de uma igreja doente”.
Precisamos então de uma renovação do nosso amor pela igreja. Um amor que critica, mas propõe mudanças. Um amor que mostra os defeitos, mas corrige-os. Um amor que, enquanto julga o mau como diz a Escritura, acolhe em misericórdia o pecador e o cura, pelo poder do Espírito..
A igreja sempre precisa desse movimento como aquela autoavaliação que o discípulo faz na Ceia do Senhor. Sempre precisamos perceber nossas mazelas e pecados, mas precisamos também olhar para o Dono da Igreja e para os exemplos ao nosso redor, que numa linguagem apocalíptica, são aqueles que não mancharam suas vestes com o pecado, mostrando aos mais fracos que são sustentados pela graça. Até a volta de Jesus, a igreja está crescendo, mesmo nas suas quedas, quando clama a misericórdia de Deus.
A Reforma, então, não é um movimento estático e escrito apenas em livros empoeirados pela história, mas ela é a atualização da ação de Deus, em homens e mulheres inflamados pela palavra de Deus. Como diz:”Eclesia reformata et semperreformanda“. Igreja reformada e sempre se reformando…
2. Não existe nenhuma Reforma a ser feita, se não levar em conta as Escrituras. (2Tm 3.16-17)
O slogan em que meditamos ainda diz que essa Reforma é: …secundum verbum Dei, ou seja, a Reforma constante deve ser de acordo com a Palavra de Deus. Nisto não se encaixam as muitas igrejas e denominações, comunidades e seitas que surgiram de doutrinas contrárias à Escritura (ainda que por um anjo ou apóstolo). A multiplicação das igrejas atuais revela mais uma briga de poder do que de convicção doutrinária. Nas palavras do bispo Robson Cavalcantti, é tanta mulher para Cristo, que transformaram a noiva dele em um harém.
A Reforma, porém, é uma volta às Escrituras e contraria a frase da moda: “Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras” que alguns teólogos discordam que seja de Francisco de Assis, afinal, Jesus era poderoso em Palavras e obras (Lc 24.19) e mesmo que os céus manifestem a glória de Deus, a Lei do Senhor é incomparável e indispensável, como diria o salmista (Sl 19).
Lutero descobriu nas Escrituras a volta a uma fé genuína e verdadeira. Foi lendo a Bíblia que a Reforma aconteceu. Por exemplo, o reformador de 1517, descobriu que um texto da Bíblia Vulgata Latina foi mal traduzido. O texto era o de Mateus 4.17, que dizia para “fazer penitência” (uma justificativa para que se pagasse as indulgências – aquele pagamento pelo perdão divino). Ele entendeu que, no grego, a expressão significava “mudança de mente”, sugerindo uma transformação interna e externa.
E foi meditando em Rm 1.17, que diz: “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”., que o reformador alemão teve sua visão de Deus e da sua salvação modificada. Ele disse: “Por fim, pela misericórdia de Deus, meditando dia e noite, prestei atenção ao contexto daquelas palavras. (…)”. Foi o entendimento destes textos que gerou toda uma transformação, não só teológica, mas também social. Nas Palavras do teólogo Michael Reeves: “Para obter uma reforma substancial, foi necessária a atitude de Lutero, que as Escrituras são a única base segura para a convicção da fé (sola Scriptura).”
Já vivemos tempos em que os evangélicos brasileiros eram conhecedores profundos das Escrituras. Já tivemos pessoas que aprenderam a ler na Bíblia. Atualmente, guardada as exceções, nossos dias são marcados por analfabetismo bíblico. Às vezes, os revolucionários crentes que esbravejam raiva contra muita coisa errada, entretanto, não conhecem e nem praticam as Escrituras. Temos de amar as Escrituras, conhecendo-as e praticando-as. Para que a Igreja sempre se reforme!
Uma volta às Escrituras, somada a sua prática e à busca pelo poder do Espírito, são necessárias para se reformar. Hoje, a Igreja necessita ter coragem de assumir, no mundo da “pós-verdade” e da fakenews, a bandeira da Bíblia como a verdade suprema de suas vidas e da qual o mundo pode se beneficiar de seus valores.
Profetas, reis e apóstolos foram inspirados para escrever a Escritura, como nos diz Pedro (2 Pe 1.21). Homens foram movidos pelo Espírito, ou seja, eles foram orientados pelo Espírito, como o vento que levanta ao céu uma pipa, a escreverem o texto sagrado, sem perderem suas personalidades e raciocínios. Hoje, precisamos, pelo mesmo Espírito, sermos iluminados ou esclarecidos no entendimento da verdade, pois a Bíblia é a palavra iluminadora de Deus (Sl 119.105).
Vimos, então, que a Igreja sempre se reforma de acordo com a Palavra de Deus. Sem dúvida alguma, esta é uma oportunidade especial dada por Deus para a Igreja refletir e mudar, sempre reformar! Um dos legados da Reforma foi a Bíblia, na língua e na mão do povo. Partindo deste ponto, respondamos algumas perguntas em oração:
1. Como está sua relação com a Igreja?
2. Como está sua interação com a Bíblia?
3. Como você pode colaborar para modificar alguma coisa errada na igreja local, e assim contribuir com a Igreja Brasileira?
Pense. Ore!
Andrei Sampaio Soares é diácono na IAP em Pedreira (São Paulo, SP), professor do Cetap e colaborador do Departamento de Educação Cristã, além de articulista do Além Portal (www.alemblog.com.br)